Minha Trajetória de Empreendedorismo

Por volta dos 13 anos, meu avô me deu uma bicicleta, Monark Barra Circular vermelha, eu aprendi a andar de bicicleta nela.

Nessa época, meu avô mandou murar o lote onde nós morávamos na Rua 36, nº 558, Parque Araguaia, Goianésia – GO.

Imagem de satélite do ano 2004, retirada do sistema de geoprocessamento da cidade de Goianésia em 14/09/2020 às 05:06hs  - http://geo.goianesia.go.gov.br/geo_goianesia/index3.php

Durante a colocação das placas do muro, eu vi os filhos do montador ajudando no trabalho. Então, me deu vontade de trabalhar para ganhar o meu próprio dinheiro. Procurei uma mulher que vendia geladinha e passei a, todos os dias passar na casa dela e pegar 15 geladinhas para vender. Eu andava por toda a cidade vendendo geladinha. Só voltava quando as geladinhas acabavam.

Eu sempre peguei sucata de eletrônica que eu achava jogada em lotes baldios e no lixo.

Eu achava muito interessante os componentes, gostava de arrancar os capacitores e jogar no fogo para ver eles explodirem, com o passar do tempo eu descobri que eles também explodem quando ligado na energia (Não faça isso, você pode literalmente morrer.).

Como eu achava trabalhoso ficar quebrando as placas, para arrancar os capacitores, eu tive a ideia de comprar um soldador para remover os componentes das placas com maior facilidade. Com muito custo consegui juntar o dinheiro para comprar um soldador. Com esse soldador eu passei a remover todos os componentes eletrônicos e colocá-los em uma caixa de sapatos. Logo eu enchi a caixa de sapatos. Como eu gostava muito daquilo, mas não sabia o que era cada componente e nem para que servia, eu resolvi que precisava fazer um curso de eletrônica.

Em Goianésia não havia curso de eletrônica, a única forma que eu poderia fazer um curso de eletrônica, seria por correspondência, mas eu também não tinha o dinheiro para pagar o curso.

Como alternativa, eu resolvi que eu iria trabalhar em uma eletrônica, assim eu poderia aprender. A partir de então eu passei a procurar emprego nas oficinas de eletrônica e a falar para todos que eu conhecia o meu sonho. Todas as eletrônicas que eu procurei me disseram não. Mas por coincidência um conhecido do grupo de vicentinos que eu frequentava trabalhava com o pai em uma oficina de montagem e manutenção de equipamentos de som automotivo. Quando descobri isso, pedi a ele para trabalhar com eles, só para aprender. Ele falou com o pai e me deu a oportunidade. Passei a trabalhar de graça só para aprender eletrônica.

No primeiro dia de trabalho eu vi que eles tinham um computador. Até então eu nunca tinha tido acesso a um computador, só havia visto na em filmes na TV e nos bancos, mas obviamente eu não podia mexer em nenhum desses. Então a minha primeira ação foi pedir para usá-lo, eu queria fazer aqueles desenhos gráficos como eu via nos filmes.

Eles perceberam o que eu estava procurando e colocaram para que eu parasse de incomodar e deixar eles trabalharem em paz.

Quando eu sentei no computador e pude finalmente usar um programa de edição gráfica igual ao que eles usavam nos filmes da TV, percebi que eles não tinham exatamente o que eu estava procurando e que o MSPaint estava longe de me possibilitar fazer edições em 3D.

Um dia eu estava vendo o responsável pelo sistema de gestão de ordens de serviço programando em Clipper. Quando eu vi ele procurando em um texto enorme e completamente sem sentido, algo que eu nem imagino o que era eu fiquei fascinado em entender como é que ele conseguia entender tanta coisa passando na tela daquela forma.

Comecei a pedir com muita insistência para ele me ensinar a programar. Na hora que o lanche chegou, ele, já cansado de tanto eu pedir, fez um algoritmo em Quickbasic que pedia dois números e mostrava na tela o resultado da soma dos dois. Me explicou o que era cada comando e me deixou mexendo. Quando ele voltou, eu já tinha conseguido fazer a subtração, a divisão e a multiplicação.

Passada uma semana, eu já entendia o básico da programação e conseguia burlar as senhas do computador, para poder utilizá-lo sem que me autorizassem.

Alguns meses se passaram e uma pessoa que estava se mudando para Anápolis me deu a sucata de computadores que ele tinha. Eu paguei o frete e levei tudo lá pra casa, com a sucata que ganhei e mais outra que comprei alguns meses depois, consegui montar meu primeiro computador. Um 286 de 20MHz, com 4MB de memória RAM e 53MB de HD. Para ter ideia de quanto essa configuração de computadores era defasada, ela foi lançada no mesmo ano que eu nasci.

Junto com a sucata que ganhei, também veio uma coleção de revistas de eletrônica e outra de revistas de programação em Basic.

Fiquei lendo e relendo todas essas revistas, programando diversos programas no computador. Cheguei até a criar um programa para ensinar digitação. O curioso é que eu mesmo nunca consegui terminar o curso que eu programei. Mas uma conhecida minha terminou e ficou mais rápida para digitar que eu.

Alguns anos depois, eu já com 17 anos, aquele mesmo programador que me ensinou, estava morando em Goiânia trabalhando com manutenção de centrais telefônicas. Nesse ponto eu já sabia na teoria, eletrônica digital, de tanto conversar com ele, e programação, que eu vinha treinando a alguns anos. Mas nunca havia trabalhado com eletrônica. Mesmo assim, quando surgiu uma vaga de auxiliar na empresa que ele estava trabalhando, ele me chamou.

Eu aceitei o desafio e me mudei para Goiânia. Passei a dividir aluguél com ele e a trabalhar consertando centrais telefônicas. Algum tempo depois que eu estava trabalhando com ele, acabei sendo demitido por falta de recursos para me manter como funcionário. O dono da empresa ficou com pena de mim e falou com um amigo dele que também trabalhava com manutenção de centrais telefônicas e telefones. No mesmo dia eu fui empregado novamente.

Quando eu comecei no novo emprego, achei que eu seria assistente também. Mas não era bem isso. Eu trabalhava com o dono da empresa e ele passava mais tempo fora, fazendo outros serviços, do que na oficina. Acabei tendo que aprender a liderar uma oficina. Algum tempo depois, ganhei até um estagiário.

Depois de algum tempo que eu estava trabalhando lá, decidi voltar para Goianésia para cuidar de meu avô que estava doente. No meio do ano, eu avisei que me mudaria para Goianésia no fim do ano.

Voltei a morar com o meu avô, em menos de um ano ele faleceu. Então decidi que queria comprar a casa dele pra mim. Como morando em Goianésia eu demoraria demais a conseguir o dinheiro para comprar a casa, me mudei de volta para Goiânia para trabalhar e comprar a casa que era do meu avô para mim.

Ao voltar para Goiânia, passei a morar na casa de um tio meu, que havia conhecido uma semana antes de voltar para Goianésia. Por coincidência nós trabalhávamos na mesma empresa a algum tempo e eu não o conhecia.

Voltei a trabalhar na mesma empresa onde eu consertava centrais telefônicas, meu salário na época era R$ 450,00, como eu precisava de mais dinheiro para poder comprar a casa do meu avô que na época era avaliada em R$ 20.000,00 eu decidi fazer faculdade para ter um salário maior.

Prestei vestibular para Tecnologia em Redes de Computadores pela FATESG – Faculdade de Tecnologia SENAI de Desenvolvimento Gerencial, o valor das mensalidades era R$ 350,00. Rapidamente me vi sem dinheiro, como estava ficando sem alternativas, decidi que voltaria para Goianésia.

Quando eu achava que já não fosse haver outra possibilidade, aquele amigo que havia me trazido para Goiânia no início, me indicou para fazer um projeto de placa para controlar a abertura de cancelas a partir de um comando enviado pelo computador. Eu nunca havia feito isso na vida, mas sabia como funcionava.

Passei os próximos 15 dias projetando o circuito, comprando gravadora para o microcontrolador e programando.

Com o protótipo pronto, procurei a empresa que havia me procurado e apresentei o resultado dos meus esforços. Eles me fizeram uma proposta para ir trabalhar lá, eu fiz as contas e disse que se eles me pagassem R$ 900,00 eu aceitaria. Eles concordaram e me contrataram.

No primeiro mês de trabalho projetando placas, para ajustar minhas contas eu não almoçava. Na hora do almoço, eu comprava um salgado em uma lanchonete e quando a fome batia eu tomava água. Eu passava o dia todo enchendo a barriga de água para não ficar com fome.

Os filhos do meu avô acabaram vendendo a casa, não esperaram que eu conseguisse juntar o dinheiro.

Até esse ponto da minha vida, eu vivia cada dia buscando uma meta e não tinha nenhum medo de arriscar tudo, eu aceitava todos os desafios e depois me virava para resolver os problemas que aparecessem. Nessa época eu não sabia que isso era ser empreendedor, eu só pensava em formas de chegar aos meus objetivos da forma mais fácil possível.

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